Primeira Parte · página 40
O TEMPO E A FÉ
O tempo é precioso em nossa vida. Mais precioso ainda se torna quando começamos a perceber que talvez não nos reste tanto quanto imaginávamos. Às vezes percebemos isso tarde demais. Reconhecemos que não utilizamos o tempo da maneira que deveríamos e, então, surge dentro de nós uma espécie de desespero, queremos viver, em pouco tempo, tudo aquilo que deixamos de viver durante tantos anos, tentar realizar sonhos que ainda não foram realizados. E, nessa pressa, começamos a atropelar tudo. Até percebermos novamente que, quando se trata do tempo, as coisas são diferentes. Existem momentos que não podem ser recuperados, experiências que pertencem a determinadas fases da vida e oportunidades que simplesmente passaram. Foi assim também com a minha relação com Deus. Demorei para colocar Jesus verdadeiramente na minha vida. E, quando finalmente O coloquei, cometi outro erro. quis que tudo acontecesse ao mesmo tempo. A ansiedade foi à frente da fé. Quis servir, aprender, compreender, realizar e compensar, de uma só vez, tudo aquilo que imaginava ter deixado para trás. Esqueci-me de algo fundamental, o tempo não nos pertence. Deus não nos pede para controlar o tempo. Ele nos pede para vivê-lo com Ele. Foi então que percebi que até mesmo o desejo sincero de servir pode se transformar em inquietação quando não sabemos respeitar nossos próprios limites e, principalmente, quando confundimos a vontade de fazer muito com a necessidade de fazer aquilo que realmente deve ser feito. Viver com Deus em plenitude é um desafio no mundo de hoje. Servi-Lo precisa ser, antes de tudo, um ato de amor, fidelidade e fé. Não podemos nos entregar verdadeiramente sem disponibilidade e dedicação. Mas também não podemos transformar nossa dedicação em uma corrida contra o tempo, como se precisássemos recuperar, em poucos anos, tudo aquilo que não fizemos antes. Quando misturamos a vontade de viver intensamente aquilo que ainda desejamos experimentar com a vontade de servir a Deus, podemos acabar confundindo nossos caminhos. A realidade se mistura com a ansiedade, e aquilo que deveria trazer paz começa a produzir cobrança. Durante muito tempo, julguei a mim mesmo por não conseguir fazer as coisas como imaginava que deveriam ser feitas. Condenei minhas limitações, minha demora e até mesmo minhas escolhas. Até que compreendi que talvez Deus não estivesse me pedindo para fazer tudo. Talvez estivesse me pedindo apenas para estar no lugar certo, fazendo a coisa certa, no tempo que Ele permite. Foi então que parei. Parei para colocar as coisas em seus devidos lugares. Parei para compreender que não preciso correr atrás do tempo perdido. Preciso apenas viver bem o tempo que me foi dado. E, se amanhã eu precisar voltar, quero voltar com a certeza de que estarei no lugar certo, fazendo a coisa certa, com o coração em paz. Porque o tempo não nos pertence. Mas podemos escolher a quem entregaremos cada instante que ainda temos.